quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Capítulo 1

Peguei minha bolsa com meu material de trabalho. Maquiagem, nariz, peruca, chapéu, roupa larga, sapatos grandes e minha bíblia. Pelo começo da descrição você me imagina um palhaço e pelo último item você me imagina um pastor. Não sou nenhuma coisa nem outra, ou não sou uma só dessas coisas, na verdade sou as duas. São parte de mim, da minha história e do que eu decidi fazer da minha vida. Mas isso vou contar daqui a pouco, tenho que correr pra pegar o ônibus.
Já tem dez anos que pego o mesmo ônibus, o Geraldo é o motorista e a Clara a cobradora. Quando comecei a pegar o ônibus não tinhamos uma relação de amizade, na verdade, o Geraldo acelerava para eu não entrar no ônibus e a Clara sempre torcia o nariz quando me via. Mas como o amor não é uma relação instantânea mas um processo de descoberta e crescimento, nosso relacionamento foi crescendo aos poucos. O Geraldo é pai de três filhos, o Júnior, Marcelo e Cleide e é casado com a Glória. Ele me contou uma vez sobre como ele conheceu a Glória, que também se tornou minha amiga, quando uma vez fui fazer animação na festa de aniversário da Cleide de 5 anos. O Geraldo estudava na Escola Municipal Dorneles no bairro Sepetiba, ele era adolescente ainda, cheio de espinhas na cara, tímido e calado. A Glória se mudou de Porto Velho pra cá e foi estudar nesse colégio, ele era uma menina muito extrovertida, que falava pelo cutuvelo, e não deixava que as chacotas pelo seu sotaque fizesse qualquer efeito na sua auto-estima. O Geraldo ficou fascinado por ela, mas também ficou desesperançado, como um traste como ele poderia atrair a atenção de alguém tão diferente dele. Mas as coisas nem sempre precisam ser como devem ser. Quando a Glória chegou a turma já tinha sido dividida para a feira de ciências da escola, e todos já tinham dupla, menos o coitado do Geraldo, e pelo acaso, deu que ela se tornou dupla com ele. Eles fizeram um projeto de literatura sobre o mundo obscuro dos vampiros, fizeram decoração, música, até figurino de vampiro eles conseguiram. Tiraram nota 10 e a Glória fez com o que o Geraldo fosse notado pelo restante da turma que o considerava um nada. A Glória tem esse poder na gente, ela consegue fazer com que mostremos o que temos de melhor, mesmo aquilo que está escondido de nós mesmos. Não foi um romance avassalador desse esse primeiro momento, como se espera de uma história de amor tradicional. Eles se tornaram amigos, mas não grandes amigos. Mesmo com todo o carisma de Glória o Geraldo ainda era o cara estranho cheio de espinhas, e não há cegueira de amor que fizesse o Geraldo ficar bonito, eu vi algumas fotos de quando ele era adolescente... Quando a Glória estava no segundo grau ela se reencontrou com o Geraldo, e aí sim a amizade foi se transformando, um vínculo que hoje eles dizem que é indissolúvel. O Geraldo ajudou muito a Glória a entender a fase da adolescencia e seus problemas com o pai, que estava alcoolotra. Quando terminou o segundo grau o Geraldo começou a trabalhar, fez uns cursos no Senai, mas sem grandes pretensões. A Glória se formou em pedagogia na faculdade do estado. Mesmo com as diferenças resolveram se casar. O celebrante foi o Frei Fernandes, muito amigo deles, que fez uma homilia que até hoje eles se lembram. Eles são muito apaixonados, e do fruto desse amor nasceu os três meninos, que tem a certeza de serem amados por seus pais. Quando o Marcelo começou a usar drogas, o amor dos pais foi mais forte que o vício. A coragem do Geraldo e da Glória de não desistir dos seu filho, foi mais forte que a enfermidade. E eles conseguiram ver seu menino do meio, se formar em educação física. A vida deles não foi fácil, tiveram muitos problemas com dinheiro, com a saúde dos meninos, e com fofocas que quase acabaram o casamento deles, mas eles vem de uma cultura que não troca as peças que estragam, mas que repara. São do tempo em que sapato era levado no sapateiro antes de ser doado ou jogado fora. Eles se contrapõem à cultura do descartável, porque o amor deles e a história deles não é descartável, não pode ser jogada fora.
A Clara tem uma história de muita luta. Ele teve que lutar pra nascer e lutar mais ainda pra continuar viva. A Clara é nova, só tem 28 anos. Sua mãe que ela conheceu por linhas processuais, era usuária de drogas, e usou mesmo na gravidez. Quando a Clara nasceu sua mãe estava quase tendo uma overdose. Sua mãe foi levada para o hospital e quando saiu jogou Clara em uma lixeira. Um catador ouviu Clara chorar e a levou para o hospital. Não virou notícia no jornal, mesmo tendo sido algo incomum na época. Ela não pode ser adotada, e morou a vida toda no abrigo. Cresceu com muita revolta, com  muita tristeza de tudo o que viveu, de toda a solidão que foi obrigada a suportar. Quando completou a maioridade saiu do abrigo e como não queria se parecer com sua mãe, usando drogas, foi procurar trabalho. Conseguiu trabalho em uma casa de família na zona norte. Ela era responsável por limpar a casa e passear com os cachorros. A casa era imensa, toda branca, cheia de tapetes e bibelôs para limpar. Mas tinha uma sala nesta casa, que chamava a atenção de Clara, uma sala que ela limpava, mas não sabia porque tinha naquela casa. Um dia perguntou à dona Socorro, sua patroa, o que era aquela sala. Dona Socorro respondeu que era uma sala que ela usava para fazer orações. Criou essa sala quando seu filho, Douglas estava muito doente e ela não tinha mais o que fazer. Seu filho morreu em poucos meses de tratamento, mas o hábito de rezar continuava. Como Clara nunca soube como se rezava pediu para dona Socorro ensiná-la, e esta o fez. Clara ouviu atentamente e só. Uma vez, começou uma grande chuva no bairro que ela morava, e ela sentia que seu barraco iria cair, e acabou se lembrando de rezar, e pediu para que parasse de chover e que ela sobrevivesse àquela noite. Não aconteceu um grande milagre, mas no outro dia estava Clara de pé para mais um dia. Ela começou a usar a oração nos momentos que ela se sentia sozinha.











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